Mais ciência, menos política barata

Jair Bolsonaro fez um pronunciamento no dia 08 de abril que tinha dois principais objetivos: vender sua imagem como uma espécie de Galileu da cloroquina e culpar de antemão a futura crise econômica nos governadores. Qualquer um que afirme que é uma estratégia moralmente dúbia deve estar preparado para ser acusado de eufemismo. Mas não vou me ater à moralidade do Presidente.

Minha pretensão aqui é mais séria; a sugestão da implementação de um remédio no combate a uma pandemia exige seriedade, mesmo quando vem do Presidente. A Covid-19 já matou 100 mil pessoas até a data que escrevo. A dificuldade do problema tende a atrair sugestões simplistas. Esforçarei-me em também não cair na armadilha.

Primeiro, a fim de esclarecimento: pesquisas relacionadas à cloroquina estão sendo feitas em todo o mundo, não existe tentativa de esconder o remédio. O que existe, de fato, é o exercício do devido procedimento científico.

É absoluta a necessidade de pesquisas científicas; a cloroquina parece, sim, ter alguma eficácia contra a síndrome respiratória causada pela Covid-19, mas não é sabido a dosagem ideal, os efeitos a longo prazo do medicamento e nem se a eficácia pode ser reproduzida em larga escala.

O processo de testes é longo e angustiante, ainda assim necessário. A história prova que pular etapas pode causar um número maior de mortes que o número remediado. Vale dizer que outros remédios também estão sendo testados; a cloroquina apenas acontece de ser o mais popular, por algumas boas razões e outras nem tanto.

A realidade é que uma solução milagrosa não existe, ela é complexa e não tem prazo. É consenso que mais pesquisas precisam ser conduzidas para que se saiba exatamente como reagem os paciente tratados com a cloroquina. Até lá a testagem em massa de possíveis doentes e o isolamento social são as únicas maneiras que se conhece de evitar mortes com certeza.

Dito tudo isto, a prescrição do medicamento no Brasil não é proibida. O próprio Ministro da Saúde afirmou que “Se ele (médico) se responsabilizar individualmente, não tem óbice nenhum”. O medicamento é ativamente recomendado em casos graves e moderados. Não há empecilho nenhum, na prática. O Estado apenas não tem como política pública oficial o uso do medicamento em pacientes assintomáticos e em estado leve.

De volta ao Presidente. Todos que estudaram matemática sabem que de nada adianta acertar o resultado de um problema e errar a conta; então o Presidente continuará errado, mesmo que, como todos desejam, seja provado que a cloroquina pode curar a Covid-19. O fato é que hoje não temos essa informação, portanto, a conclusão vem de uma premissa falha, de nada vale.

Por isto, quando se trata de ciência, um raciocínio coerente por trás de cada conclusão é exigido, de forma que seja sempre possível alcançar bons resultados, sem depender da sorte; sem apostar com vidas humanas.

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