Uma visita ao Youtube

Um dia desses fiz uma visita ao Youtube para ouvir uma música dessas antigas. O video acabou. Fui aos comentários, já ciente do tipo de comentário que encontraria; nunca resisto. “Isto sim era música”, “nesse tempo é que se entendia o que era música de verdade”. Os comentários são sempre iguais, seja em canções dos anos 60 ou 70, de rock ou bossa nova.

Entendo o apelo do passado. Concordemos que antes de tudo ganha pontos por não ser presente. É uma ideia apenas: não precisa obedecer às regras da realidade se quem a concebe assim deseja. Depois, as representações românticas do passado no mundo da arte nos são inescapáveis, não são assim tão culpados os que sonham com o passado que nunca houve. 

Há qualquer coisa que atrai em obras que falam de outros tempos e outros lugares, mesmo que elas não tenham nenhuma pretensão romântica. Fazer parte de uma greve de mineradores franceses — logo franceses! — , faísca de uma revolução socialista, ao lado de Etienne tem lá algo de bonito ou heróico. Com um momento de reflexão, claro que não tem nada de desejável em fazer parte de um romance de Zola, mas nestes momentos de divagação a lógica nunca encontra respaldo.

Ah! A ironia — não tão sutil — em comentários fúnebres a elevar a música antiga quando estas falam justamente em rasgar os laços com o passado. É sempre mais fácil falar bem do já está estabelecido como grandioso. Imaginem só, achar um Castro Alves no mar de poemas produzidos hoje em dia, falando apenas em Brasil. Ou então achar um Tom Jobim, que seja. É difícil. Com sorte serão descobertos depois da morte, ou depois ainda.

A dificuldade não está em ler e escutar tudo o que há. Isto seria fácil, um maluco qualquer o faria. Laborioso é estabelecer os critérios que fazem de um clássico um clássico. Encher os pulmões e bradar: -este dormirá ao lado dos Grandes. Ninguém no mundo poderia o fazer. Ninguém. Talvez estes tais critérios nem existam, quem sabe?

Apesar de tudo, há de se reconhecer nos antigos um atalho em relação aos modernos. Qualquer coisa que se deseje tirar de uma obra artística, o caminho mais rápido provavelmente está nos clássicos. Mais pessoas tidas como inteligentes leram e aprovaram os antigos. Aí está a razão única. Claro que se pode ignorar 99% de tudo quanto dizem, mas o mesmo pode ser feito com o que falam sobre os contemporâneos. O ideal seria digerir tudo aquilo que é arte e decidir por si o que é bom. Diante da impossibilidade disto, o melhor é que o pouco que se tem tempo de ouvir, ler e assistir seja escolhido criteriosamente.

A diferença entre admitir que os clássicos têm algum valor e as sabujices comentadas no Youtube está no reconhecimento do moderno como clássico que ainda não teve tempo de ser devidamente colhido.

Quanto ao uso de nosso tempo de maneira criteriosa, retifico-me: perder tempo é ser eficiente.

Papo de bar

Lembro de quando ainda não cursava Jornalismo. Estava eu, aos meus 19 anos, refletindo — tanto quanto é capaz um jovem de 19 anos — sobre o que eu faria da vida. Faria da vida. Sempre odiei este termo: “fazer da vida”.

Primeiro, porque é algo tão abstrato que invariavelmente minha cabeça começava a doer sempre que essas palavras eram pronunciadas. Segundo, porque eu não tinha ideia de qual era a resposta.

Com o tempo decidi responder a verdade. Sempre dizia

  • Não sei, mas procuro algo que me excite intelectualmente –  talvez tenha sido menos eloquente, a memória me falha.

Assim respondi durante muito tempo. Estava eu num bar qualquer com umas pessoas quaisquer, quando me dirigiram a medíocre pergunta. Preparado, repeti o bordão. Foi quando uma colega prontamente pontuou:

  • Mas tem que pensar também no mercado, no dinheiro, né? – Ela falou assim mesmo, juro. 

Eu tentaria descrever minha ira naquele momento, se não soubesse de antemão que falharia. Falharia sem falta. Por pouco não levantei da mesa e lhe xinguei com todos os palavrões que me vieram à mente. E todos os que sabia me vieram à mente ao mesmo tempo. Tive mais pudor que ela. Sorri, balancei a cabeça, concordei. E o fiz sinceramente.

Voltei para casa arrasado. Não estou tentando dizer que ela estava errada. Mas precisava mesmo falar aquilo? Não bastava ter aquela sabedoria para si? Claro que não. Pois eu acho que certas coisas não podem, não devem ser ditas em voz alta. No caminho de casa lembrei e relembrei o ocorrido. Me veio a ideia:

  • Deveria ter levantado e citado Fernando Pessoa: “Tratem da fama e do comer / Que amanhã é dos loucos de hoje”. 

Mas não disse nada. Fui covarde. Como pude não dizer nada? Foi um atentado. Não me refiro a ela, falo do meu mutismo. Atentado não a mim; mas também a mim, aos românticos, aos poetas, à Humanidade!

Quando deitei no travesseiro, acho que voltei a concordar com a vilã, do mesmo jeito que na mesa do bar. Hoje assisti Whiplash. Neiman é o protagonista. Um jovem baterista de 19 anos que escolhe “morrer bêbado aos 34 anos, sozinho”. Seria o preço da Grandeza ou qualquer coisa assim, sei lá. Só hoje é que vim me lembrar dessa história. Quem sabe o que isto quer dizer?

Concordo com o meu eu de antes. Não com o que condescendeu com aquele nefasto comentário antes de dormir. Concordo com o que teve vontade de levantar e declamar Fernando Pessoa. E daí se ela estava certa? E daí que vou morrer? Talvez esquecido por todos os amigos como a pessoa que fui, mas lembrado por todos os seres vivos e que ainda irão nascer como Escritor, Poeta, Artista. A tal Grandeza…

O que mais me dói, e escrevo sem vergonha de cair em contradição, é saber que isto é impossível. Não se realizará, por um problema matemático. Ou melhor, mesmo que se realize, não se realizará para mim. Pois ou falharei, como todos os outros – coisa provável. Ou então, pior, eu conseguirei. Quer dizer, não eu, pois estarei morto, e o que importa ao cadáver o modelo do seu caixão? Pois é, não conseguirei mesmo que consiga. Não eu. Não Neiman. Não Pessoa. Ninguém. Coisa engraçada.

Carta de um autor desconhecido

Meu caro amigo, vim lhe trazer novidades. Li há muito tempo atrás uma carta cujo remetente desconheço. O autor tentava fazer algo como o que agora estou a fazer. Não era uma carta muito bem escrita, só cito ela pois me recordo deste autor ter falado umas bobagens sobre Samba, Rock, futebol e choro. Então quero começar esta carta afirmando que, felizmente, hoje já não se toca mais Rock, nem Samba e o choro é raridade.

Evoluímos muito! Tenho orgulho de falar isto. Nossa sociedade já não é mais como antes. Temos uma elite incrível. Falo em termos genéricos de propósito, pois toda a nossa elite é digna de elogio. Elogio do mais alto nível! Nossos intelectuais, por exemplo, são verdadeiros heróis. Foram estes que nos ajudaram a acabar com toda a música boba de outrora. Samba e Rock, como eu já disse, não são mais bem vindos aqui. Agora só tocamos os clássicos de Wagner & cia.

Na política, estamos caminhando na direção certa. Nosso líderes conseguiram comprar um bocado de doses de um remédio que cura uma doença nova – desculpe, me adianto. Acontece que recentemente surgiu esse tal vírus – diz-se que surgiu naturalmente, mas cá entre nós, acho que a história não é bem essa. É coisa boba, só menciono o fato para adicionar contexto.

Eu falava da cura. Pois é. Somos agora o país mais bem equipado para lidar com a pandemia – esqueci de dizer, o vírus acabou se espalhando pelo mundo, mas está tudo sob controle. Nosso líder fez o possível e o impossível para nos ajudar. No fim das contas, apesar de previsões extravagantes, poucos foram os falecidos. Só não dou números exatos pois não os tenho comigo no momento, e como você sabe, não gosto de citar informações inexatas.

Há pouco tempo ocorreu uma coisa que acho válida mencionar, mais pelo fator simbólico. Um grupo de pessoas, das mais honradas, diga-se, conseguiram falir uma das maiores empresas do mundo. Na verdade, a empresa quase faliu, ainda tem um ou outro consumidor. Mas, voltando, o motivo foi dos mais nobres. Esta tal empresa pensou que seria uma boa ideia colocar uma mulher numa campanha de dia dos pais.

A situação é um pouco complicado, tentarei dar o panorama geral. Há por aí uma cirurgia que faz mulheres virarem homens e também o contrário – ou assim dizem. Esta mulher fez isto e agora falam que é um homem. Parece até que essa pessoa tem um família e filho, pelo que sei é até bom parente; mas o ponto não é este. O problema, como sei que você já imagina, são os seus genes. Afinal, como uma mulher de genes xy, seria impossível para ela mudá-los. Assim, deu-se o boicote.

Já me estendi demais, porém lhe contarei mais um caso para não ser acusado de parcialidade. Apesar da nossa evolução, tragédias ainda acontecem. Falo isso com a maior dor no coração, acredite. Há pouco, uma menina estava grávida e lhe foi permitido que abortasse aquele ser dentro dela. Sim, deixamos que um assassinato acontecesse, e sem nenhum tipo de punição à menina. Peço perdão por ter de adicionar algo tão sombrio numa carta dessas, preferiria omitir algo assim, mas a verdade deve ser dita por inteira, lembro-me que algum poeta falou isto. 

Sinceramente, quase choro só de pensar neste homicídio. Não tive nem coragem de me aventurar a ler todas as circunstâncias do crime, pois minha alma não aguentou continuar lendo sobre o caso.

É isso. Devo terminar por aqui, minha emoção me impede de alongar esta carta. Só queria lhe transmitir a situação atual das coisas. Apesar desta última notícia, devo dizer que a coisa aqui não está preta de jeito nenhum, como disse aquele remetente desconhecido. Se me permite o trocadilho, a coisa está branquíssima! Ah, sim, quase esqueço do futebol. Me furtei de falar sobre isto no início, mas não se preocupe, aqui ainda jogamos futebol.

Com muito carinho, do seu querido amigo.

O Golpe de 2020, encabeçado por Jair Messias Bolsonaro

Parece haver hoje um delírio coletivo nas altas cúpulas do poder Executivo: a ordens do Presidente da República, as Forças Armadas prontamente fecharão o STF e o Congresso. Não é claro como funcionaria a intervenção, o que se faria com os Deputados, Senadores, Ministro do STF, jornalistas? Não se sabe; e é alarmante quando nem os carrascos sabem como será dada a execução.

Mas deixemos isso de lado, por enquanto. Vamos aos fatos recentes. Os últimos dias foram de uma ruidosa garrulice dos golpistas. Disseram, em nota, Bolsonaro, Mourão e Fernando e Silva:

– Lembro à Nação Brasileira que as Forças Armadas estão sob a autoridade suprema do Presidente da República, de acordo com o Art. 142/CF.

– As mesmas destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.

– As FFAA do Brasil não cumprem ordens absurdas, como p. ex. a tomada de Poder. Também não aceitam tentativas de tomada de Poder por outro Poder da República, ao arrepio das Leis, ou por conta de julgamentos políticos.

– Na liminar de hoje, o Sr. Min. Luiz Fux, do STF, bem reconhece o papel e a história das FFAA sempre ao lado da Democracia e da Liberdade.

– Presidente Jair Bolsonaro.

– Gen. Hamilton Mourão, Vice PR.

– Gen. Fernando Azevedo, MD.

Uma nota digna dos assinantes. Hoje, o STF é quem decide, em última instância, a legalidade do que se passa na República. A nota diz que as Forças Armadas “não aceitam tentativas de tomada de poder por outro poder da República, ao arrepio das Leis, ou por conta de julgamentos políticos.”.

Então, seriam as Forças Armadas a 5ª instância, a se apelar quando a decisão do STF não agrada? Quem decide quais decisões estão “ao arrepio das leis”? Não sendo o STF, seria o PR ou as Forças Armadas? Pode, então, o Presidente, sempre que quiser, em sua “autoridade suprema”, convocar as forças armadas para que elas julguem os juízes?

A linha de raciocínio é de tal sorte absurda que Dilma poderia ter convocado as Forças Armadas para fechar o Congresso antes do seu Impeachment. Afinal, fosse como é dito na nota, e não o STF a decidir o que pode e não pode ser feito, de acordo com a constituição, ficaria o Brasil submetido ao arbítrio do governante da vez. A nota sequer faz sentido em si, a consequência lógica é absurda.

Foi publicada no dia 13, como resposta ao determinado pelo Ministro do STF Fux, que disse serem as Forças Armadas órgãos de Estado, e não de governo, indiferentes às disputas que normalmente se desenvolvem no processo político. Perfeito!

Na noite do dia 16, o Presidente falou em redes sociais que não pode “assistir calado enquanto direitos são violados e ideias são perseguidas”. Não disse ao que assistia. Supõe-se que ele fala da investigação ao financiamento de protestos anti democráticos, haja vista o aprisionamento de Sara Winter e cia ontem (16).

Quando li, pensei com meu botões: – está o homem que defende torturadores, de repente, apaixonado pela ideia abstrata de liberdade? Teria ele virado um libertário? O tempo dirá

E disse, hoje (17) Bolsonaro falou em frente ao Alvorada duas vezes:

Eu não vou ser o primeiro a chutar o pau da barraca. Eles estão abusando. Isso está [a] olhos vistos. O ocorrido no dia de ontem, no dia de hoje, quebrando sigilo de parlamentares, não tem história nenhuma visto numa democracia por mais frágil que ela seja. Então, está chegando a hora de tudo ser colocado no devido lugar

Mais tarde disse:

Têm abusos acontecendo e conseguem acusar a mim ainda. Mas importante que as mídias sociais hoje em dia mostram a verdade. E, brevemente, tudo estará resolvido. Pode ter certeza (…) É igual uma emboscada. Você tem de esperar o cara se aproximar. ‘Vem mais, vem jogando ovo e pedra’. Falei hoje de manhã: não quero medir força com ninguém. Continua vindo

Ainda comentou sobre o julgamento da sua chapa no TSE. Remetendo ao que disse o General da ativa Luiz Eduardo Ramos, membro do Governo, quando ameaçou dar golpe, se esticada a corda, Bolsonaro afirmou que não admitirá um “julgamento político”, o que seria “esticar a corda”.

Se já não era óbvio, Bolsonaro entrega sua estratégia: agir como em “uma emboscada”. Não se pode “chutar o pau da barraca antes”. Provocar, aos poucos, reações mais duras, por exemplo, do STF, apenas para que haja uma desculpa, e então, com o “abuso” do adversário, a “hora de tudo ser colocado no devido lugar” chega.

Ou seja: a hora do auto-golpe. Se em 37 e 64 se poderia dizer que os comunistas eram uma mal maior, agora o mal maior são as instituições democráticas em seu pleno funcionamento. Seu ímpeto autoritário tem a própria democracia como inimiga.

Enfim se tornaria concreto o sonho do Presidente.

A emboscada não funcionará. A população não está ao lado do Presidente. As Forças Armadas, as que tem tropas e tanques, não estão ao lado do Presidente. A realidade não está ao lado do Presidente.

Bolsonaro sabe – ou deveria saber – disso tudo. Sua esperança está nos policiais estaduais, os mesmos pusilânimes que organizaram greves ilegalmente e deixaram a população dos estados nas mãos dos bandidos, há não muito tempo.

De volta ao início: o problema, para Bolsonaro, não está nem mesmo em dar o golpe. Pode muito bem acontecer das polícias embarcarem nessa jornada, ou, que seja, as Forças Armadas. Guerra civil, sangue derramado, censura à imprensa, prisão de Ministros do STF e dos congressistas. E depois?

O que fará o Brasil sem parceiros comerciais, sem investimento externo, sem respeito mundial? Já não haveria contra o que lutar e, finalmente, seria a hora de Bolsonaro governar o país, como até agora evita. Seria assim, não fosse o presidente quem é. Ele sempre escolherá lutar contra sua própria sombra antes de agir como deve um governante.

O ponto positivo será, é evidente, a reabertura do comércio em todo o país e, com isso, o pódio de casos curados da Covid-19, como gostam de falar por aí, que será simultâneo, quem diria!, com o isolado e solitário primeiro lugar em número de corpos enterrados.

Bolsonaro, segundo Bolsonaro

É uma coisa ser chamado por esquerdistas e liberais de fascistóide; não passa de elogio vindo da boca de comunistas – sim, pois todos aqueles à esquerda de Bolsonaro o são. Também é igualmente irrelevante, para a elite intelectual bolsonarista, quando o jornal mais influente do mundo reporta sobre as constantes ameaças de golpe dos aliados do Presidente, afinal, não é como se isso, mais que tudo, afastasse investimentos do país. Mas, e quando até mesmo sob seus próprios critérios, o Presidente da República falha?

Disse Bolsonaro, durante a campanha:

“O que vem sendo feito ao longo dos últimos anos? O presidente indica os seus Ministros de acordo com interesses político-partidários, tem tudo para não dar certo. Qual a nossa proposta? É indicar as pessoas certas para os Ministérios certos. Por isso nós não integramos o Centrão, tampouco estamos na esquerda de sempre, vamos escalar as pessoas certas.”

Um ano e seis meses depois, Moro, o Atlas da justiça, representante do que há de mais técnico no governo, dentro dos critérios dos bolsonaristas, demitiu-se, segundo ele, devido à tentativa do PR de interferir na Polícia Federal.

Luiz Henrique Mandetta, longe de ser perfeito, é um médico, equipado para liderar o Ministério da Saúde, mas foi demitido durante a pandemia por não ser subordinado o suficiente; Nelson Teich, substituto do anterior, esse sim, mais subordinado ao chefe, tinha como defeito, quem diria, ser médico, o que o impediu de continuar no Ministério, haja vista a insistência do Presidente em promover uma droga cuja eficiência não é provada.

Para se manter no poder, diante da possibilidade de Impeachment, Bolsonaro também tratou de ir ao fundo do Centrão comprar apoio em troca de cargos dentro da máquina estatal.

Nos ministérios, Fábio Faria foi indicado recentemente à liderança do Ministério das Comunicações. Como Ministro da Saúde, no lugar dos antecessores, está Eduardo Pazuello, cujo mérito está em sua “experiência em logística”, justo, não fosse esta apenas uma desculpa para colocar outro Militar no governo.

Novamente: as práticas de Jair Bolsonaro não foram criminalizadas por ninguém além dele mesmo. Há uma dissidência entre o que falava o Bolsonaro candidato e o que faz o Presidente, mais:

“Então qualquer presidente que porventura distribua ministério, estatais, ou diretorias de banco para conseguir apoio dentro do parlamento, ele está infringindo o art. 85 do inciso dois da constituição. Qualquer um pode, se eu por exemplo, apresento no ministério para um partido com objetivo de comprar voto, qualquer um pode então me questionar que eu estou interferindo no livre exercício do Poder Legislativo”

Também é de autoria dele a frase acima. Parece que à máxima “à mulher de Cesar não basta ser honesta, tem de parecer honesta”, Bolsonaro prontamente responde: “à mulher de Cesar não é necessário ser honesta nem parecer honesta, basta dizer que é honesta”.

Lula: um constante lembrete da razão de existir um Bolsonaro

É natural e razoável a crítica constante a que é submetido o atual presidente da república; seria, pelo contrário, motivo de preocupação se as instituições ficassem caladas e inertes diante das constantes tentativas de agressão ao Estado de Direito de autoria do PR. Mas ainda não é tempo para lágrimas. Ainda há o que ser feito a fim de evitar a barbárie. Um sábio diria, imagino eu, que é tempo de todos aqueles que concordam sobre o básico para convivência em sociedade, isso é, a tolerância, o respeito às regras do jogo – democracia -, juntarem-se não para chegar ao poder, mas para impedir que Bolsonaro o faça novamente em 2022. Eis que entra Lula, a todos deixando claro que apenas se preocupa com seu projeto de poder, tal qual Bolsonaro.

Terça feira, 19/05, Lula, em entrevista à Carta Capital, disse: 

“Quando eu vejo alguns discursos dessas pessoas, falando, quando eu vejo, sabe, essas pessoas acharem bonito que tem que vender tudo que é público, que o público não presta nada… Ainda bem que a natureza, que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus. Porque esse monstro está permitindo que os cegos enxerguem, que os cegos comecem a enxergar, que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises”.

Por óbvio, Lula pediu desculpas depois, o que pouco importa. Uma frase proferida por um civil, bastante influente, é verdade, mas ainda um civil, é pouco relevante. Se ele, como Bolsonaro, ocupasse a cadeira de presidente, seria mais digno de crítica. Como não é o caso, que Lula fale o que quiser, contanto que dentro dos limites da lei.

Mais interessante de discutir é o conteúdo da frase, o que ela representa, e não a moralidade de quem a pronunciou. Em resumo, disse Lula, que a pandemia é uma coisa boa pois prova que o Estado é necessário e que privatizações são ruins. É bem verdade que a pandemia expõe alguns problemas de teses que defendem a inexistência do Estado, ou que defendem a privatização da saúde. Ainda assim, não é uma troca justificável. 

Ora, não é justamente para poupar vidas que se quer expor o problema dessas teses? O objetivo de toda teoria política e econômica é, no fim das contas, preservar a vida e o bem estar das pessoas.

Se não, pois então podemos justificar as mortes na guilhotina, consequência da revolução francesa, bem como a tirania de Napoleão que se seguiu, bem como o fim do isolamento social para que a economia não pare.

Apesar de não ser relevante como fato político, a frase de Lula é relevante como fato histórico. Podemos acreditar que foi apenas um deslize. Também podemos, ao contrário, analisar a frase sob o contexto de toda a história do PT no poder, de Lula no poder; o PT tem, sim, culpa de Bolsonaro existir. 

Ninguém há de dizer que em 2018 Haddad tinha chances maiores de vitória contra Bolsonaro em um segundo turno, no lugar de Ciro, por exemplo. Falo apenas da melhor estratégia de vitória se o PT tinha como objetivo impedir que Bolsonaro fosse eleito, a fim de preservar a democracia. A mim pouco me importa um como outro. Apenas com esse fato, é evidente que o PT tem antes em mente seu projeto de poder do que o melhor para o Brasil. Assim sempre foi, assim sempre será.

Que fique claro, jamais diria que deve ser de outra forma, afinal, natural é que todo partido pense sempre no que é melhor para si, como também cada indivíduo pensa no melhor para si e para os seus. O que em lugar disso falo é que o melhor para Lula, para o PT, não é o melhor para o Brasil, de tal sorte que em busca dos seus fins foram responsáveis, parcialmente, sejamos justos, pela existência da maior ameaça à democracia desde seu nascimento.

Enfim, que não se pense que é equivalente o que diz Lula ao que diz Bolsonaro. Tanto em conteúdo como em responsabilidade. O Presidente da República tem de ter mais responsabilidade e tem de pensar mais no que irá dizer que qualquer outro cidadão. É um dos fardos do cargo. Ele responde não somente por si, mas, enquanto ocupa a presidência, responde também por todos os brasileiros. Dito isto, Lula é tão suscetível a críticas por falar bobagens como qualquer outro cidadão: que os interessados nisso o façam.

À oposição: talvez não seja uma boa ideia ter Lula como aliado. É verdade que ele tem uma força política inigualável, mas é também verdade tudo o que foi dito aqui. Em vez disso, apostar em alguém que não necessite da polarização estúpida que há hoje no país para ser eleito é um caminho melhor, apesar de mais difícil. Até lá, espera-se que o PT e Lula não colaborem novamente para a criação de outro Bolsonaro, um já basta.

Pronunciamento de Sérgio Moro

Devido à troca do comando da PF, Sérgio Moro falou hoje, 24 de abril, em rede nacional. Em um pronunciamento extenso, cansativo e demagógico, o ex-juiz confirmou sua demissão. Fez uma série de afirmações que, postas no contexto de sua biografia, não passam de delirantes. Os 35 minutos de fala foram mais uma disputa, contra Bolsonaro, pela narrativa vigente no imaginário popular do que qualquer outra coisa.

O discurso, além de afirmar sua saída do executivo, serviu para: listar uma série de conquistas durante o tempo em que ficou no cargo; posicionar-se como virtuoso lutador contra a corrupção, que tem sempre como escudo a democracia e a lei, lembrando sempre ao povo seu papel na Lava Jato; pintar Bolsonaro como pior que o PT no fator luta contra a corrupção, por interferir na autonomia da PF.

Por último, a já comum demonização da política, mas, dessa vez, colocando Bolsonaro no mesmo balaio dos demais homens públicos, pois este fez, segundo Moro, uma indicação política após a exoneração de Valeixo, o que é imperdoável aos olhos da verdadeira justiça – aos olhos de Moro.

Conquistas

Justíssimo! Todas seriam posições razoáveis, não fossem os fatos. A começar pelas conquistas como Ministro: o pacote anticrime, enviado ao Congresso com a assinatura de Moro, teve como principal ponto a excludente de ilicitude, retirada do texto, aquela que permite o perdão ao “excesso doloso” em casos de “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”.  Também sem aval do ex-ministro, foi adicionada a figura do juiz de garantias ao pacote. Ao ser aprovado, o pacote já não era mais do Ministro, mas sim do Congresso.

Também os dados de violência apresentados nada têm de mérito da atual gestão. Os dados da diminuição de homicídios foram apresentados apenas 9 meses após o início do atual governo. Sérgio Moro disse que a diminuição vem acontecendo desde 2018, mas sempre puxando para si uma parte da glória. Naturalmente, esqueceu de citar quais medidas foram tomadas pelo próprio para que uma melhora tão considerável tivesse resultados tão rápidos. Quem sabe em uma entrevista coletiva alguém lhe pergunte que soluções foram essas; afinal, todos os países do mundo têm muito a aprender com tamanha eficiência.

Não apresentou porque não existem. Inovações dos Estados e medidas do governo Temer tiveram um impacto na diminuição da taxa de homicídios em 2018 e 2019. A comparação com 2017 é também um possível fator, pois ocorreram disputas de facções pelo controle do tráfico de droga no país, o que teve como consequência o aumento de homicídios no ano.

Rule of Law e autonomia

Outro ponto foi a paixão repentina de Sérgio Moro pela “rule of law”. Não é preciso ir tão longe para demonstrar que Moro e a lei não são muito íntimos. O caminho mais fácil é pelos vazamentos feitos por The Intercept. Segundo o site, que nunca foi desmentido pelo ex-ministro, uma série de diálogos promíscuos aconteceram entre Deltan Dallagnol e Sérgio Moro durante a operação Lava Jato. O artigo 254 do código de processo penal teria então sido infringido, além do código de ética da magistratura, claro, apenas na eventualidade dos diálogos serem verdadeiros.

Outro caso, que toca a autonomia da PF e o amor inesperado que Moro tem pela lei, ocorreu também durante a Vaza Jato. O ex-ministro chegou a dizer que as provas colhidas pela polícia, na prisão dos hackers, seriam destruídas. A PF pronunciou-se contra Moro, por ser uma decisão fora da competência do cargo dele; o Ministro do STF Fux determinou a preservação das provas posteriormente.

Aqui não vos fala um legalista, mas tão pouco alguém que pretende ser um. O problema creio que surge no momento em que uma figura pública tenta se vender como alguém que preza pela “rule of law” quando a realidade, e que fique claro, a realidade apenas, demonstra que existe, na melhor das hipóteses, um caso de dissonância cognitiva evidente.

A Política

Para alguém que se põe como amante da Democracia, Moro bate como um verdadeiro “bolsonarista raiz” na tecla de indicação política. Primeiramente, indicações políticas são parte do nosso sistema democrático. O governo de coalizão precisa de negociação, desde que tudo seja feito dentro dos limites legais. Mas não veem assim as coisas os seguidores de Moro, que, a propósito, assemelham-se muito aos de Bolsonaro e até aos de Lula. Do segundo pela visão de um homem sem defeitos e cujos fins são dignos, apesar dos meios; do primeiro pelos mesmos motivos e também o ódio à política. Então, sendo a concessão a políticos um pecado dentro desse paradigma morista ou lavajatista, o ex-ministro mostrou-se mais que ciente da existência desses indivíduos em seu pronunciamento, com constantes acenos.

Dito isto, a mudança na PF pode sim ter algo de ilícito, por, segundo Sergio Moro, se tratar de uma tentativa de quebra da autonomia. É uma acusação grave e cabe às autoridades investigar; antes disto provado, nada fora da alçada do Presidente e do jogo político ocorreu. A reação e a tentativa de jogar o povo contra um fato como este, quando tantos outros podem ser criticados tão duramente, vem do berço lavajatista de ódio à política, que levou Bolsonaro à cadeira que ocupa.

Bolsonaro navegou na onda lavajatista até ela se virar contra ele, um modelo a se evitar ao próximo candidato a timoneiro. Se não era possível antes, hoje já se pode falar da candidatura de Sérgio Moro em 2022. Porém, “cortem-lhes as cabeças” é uma bandeira pesada; a história mostra que, eventualmente, o carrasco passa a sentenciado. Se a revolução francesa não é prova, que seja prova Bolsonaro. Esse espírito da Lava Jato, que permeia o imaginário coletivo como tudo que há de virtuoso, não é nem benéfico ao país nem a quem o difunde. Mas que o ex-ministro aprenda como Bolsonaro; não venho aqui dar conselhos.

Sim, seria excelente se Sérgio Moro realmente fosse um defensor da Democracia, das leis e dos direitos individuais, e que veio à terra defender o justo. Infelizmente, não passa de um Ministro cuja fala não condiz com as ações e cujas ações não conduzem o país a um bom caminho.

Mais ciência, menos política barata

Jair Bolsonaro fez um pronunciamento no dia 08 de abril que tinha dois principais objetivos: vender sua imagem como uma espécie de Galileu da cloroquina e culpar de antemão a futura crise econômica nos governadores. Qualquer um que afirme que é uma estratégia moralmente dúbia deve estar preparado para ser acusado de eufemismo. Mas não vou me ater à moralidade do Presidente.

Minha pretensão aqui é mais séria; a sugestão da implementação de um remédio no combate a uma pandemia exige seriedade, mesmo quando vem do Presidente. A Covid-19 já matou 100 mil pessoas até a data que escrevo. A dificuldade do problema tende a atrair sugestões simplistas. Esforçarei-me em também não cair na armadilha.

Primeiro, a fim de esclarecimento: pesquisas relacionadas à cloroquina estão sendo feitas em todo o mundo, não existe tentativa de esconder o remédio. O que existe, de fato, é o exercício do devido procedimento científico.

É absoluta a necessidade de pesquisas científicas; a cloroquina parece, sim, ter alguma eficácia contra a síndrome respiratória causada pela Covid-19, mas não é sabido a dosagem ideal, os efeitos a longo prazo do medicamento e nem se a eficácia pode ser reproduzida em larga escala.

O processo de testes é longo e angustiante, ainda assim necessário. A história prova que pular etapas pode causar um número maior de mortes que o número remediado. Vale dizer que outros remédios também estão sendo testados; a cloroquina apenas acontece de ser o mais popular, por algumas boas razões e outras nem tanto.

A realidade é que uma solução milagrosa não existe, ela é complexa e não tem prazo. É consenso que mais pesquisas precisam ser conduzidas para que se saiba exatamente como reagem os paciente tratados com a cloroquina. Até lá a testagem em massa de possíveis doentes e o isolamento social são as únicas maneiras que se conhece de evitar mortes com certeza.

Dito tudo isto, a prescrição do medicamento no Brasil não é proibida. O próprio Ministro da Saúde afirmou que “Se ele (médico) se responsabilizar individualmente, não tem óbice nenhum”. O medicamento é ativamente recomendado em casos graves e moderados. Não há empecilho nenhum, na prática. O Estado apenas não tem como política pública oficial o uso do medicamento em pacientes assintomáticos e em estado leve.

De volta ao Presidente. Todos que estudaram matemática sabem que de nada adianta acertar o resultado de um problema e errar a conta; então o Presidente continuará errado, mesmo que, como todos desejam, seja provado que a cloroquina pode curar a Covid-19. O fato é que hoje não temos essa informação, portanto, a conclusão vem de uma premissa falha, de nada vale.

Por isto, quando se trata de ciência, um raciocínio coerente por trás de cada conclusão é exigido, de forma que seja sempre possível alcançar bons resultados, sem depender da sorte; sem apostar com vidas humanas.

Impeachment de Bolsonaro: realidade?

O ano de 2019 serviu como demonstração da incompetência política do poder executivo brasileiro. A seu favor o Presidente tinha a segunda maior bancada no Congresso; uma oposição muda; e a reforma da previdência crida como necessária por todas as camadas influentes da sociedade. Assim era, porém Bolsonaro conseguiu perder o apoio de sua própria bancada; foi oposição a si mesmo; e o país cresceu menos da metade do projetado pelo Ministério da Economia – apesar da reforma concluída, que foi falsamente vendida como solução de tudo, quando na realidade é uma medida de longo prazo.

Por isto, não compartilho da surpresa de tantos ao ver o Presidente agir como vem agindo na atual crise. É verdade que não se espera que alguém razoável vá contra as recomendação da OMS de como lidar com uma doença, tanto mais durante uma pandemia. O erro é julgar Jair como razoável. Ele não tem os precedentes dignos de um indivíduo lógico.

Felizmente a Constituição tem o remédio adequado: impeachment. Este, porém, não surge do nada. Em primeiro lugar, não requer apenas o crime de responsabilidade; como todo processo político, necessita de adequada conjuntura política.

Permitam-me lembrar rapidamente o que se passou com Dilma. A então Presidenta tinha nas mãos: alto desemprego, alta inflação, retração do PIB, não tinha apoio de deputados, nem de senadores, nem da população. Além, é claro, do crime de responsabilidade. Jair já possui este – a folha lista 15 crimes – , àqueles ele acelera sem freio, com ou sem culpa.

A crise econômica já está desenhada, é inevitável. Contornável seria se uma boa justificativa fosse dada, e, mais importante, aceita pela população. A Covid-19 é a desculpa perfeita, todo o mais estável.

Mas, ao que indicam recentes pesquisas, a aposta do Presidente na dicotomia de saúde e economia não vem dando o resultado ansiado por ele. O Ministro da Saúde, o próximo na guilhotina por ter protagonismo na crise, tem popularidade superior a Jair, assim como também são populares as medidas de isolamento propostas pela pasta.

Estes sendo os pontos claramente favoráveis ao impeachment, prossigo aos negativos, ou menos positivos, se preferirem.

É da natureza de Bolsonaro o ataque às instituições; ele necessita da constante guerra contra algo ou alguém a fim de se mostrar atuante. Do contrário, não há mobilização de seus seguidores mais fiéis, que são a única constante do governo. Ganha-se em um lado, perde-se em outro. Com os ataques constantes à democracia e aos políticos, quem diria, perde-se cada vez mais o apoio de políticos.

Dito isto, parece ainda haver relutância ao impeachment entre Deputados e Senadores. Penso serem dois os motivos principais: o medo da banalização do processo de impeachment e a certeza da paralisação do Congresso por um longo tempo – o processo de Dilma, por exemplo, durou quase um ano. Acredito que são temores plausíveis. É preciso pensar, entretanto, se são plausíveis o suficiente para a manutenção de um indivíduo evidentemente inapto ao cargo que possui.

Apesar de tudo, o atual Presidente ainda não alcançou Dilma. Para 59% dos brasileiros ele não deveria renunciar. Uma luz no fim do túnel para Bolsonaro.

Concluo que a conjuntura política necessária ao impeachment não existe – ainda. Ainda porque a capacidade única que Jair tem de criar crises parece não ter limites, nem Trump está a altura dele; é escandaloso a alguém não familiarizado com o Brasil. E deveríamos também nos escandalizar.

A este caso, creio que se aplica a famosa frase de Nelson Rodrigues: o que nos falta é o espanto político.

Em favor da representatividade

Toda a história da humanidade parece sugerir que a Arte é algo importante para o Homem; estamos, bem ou mal, a influenciar e ser influenciados o tempo todo por ela. Sem Madame Bovary, talvez Machado de Assis nunca viesse a ser quem foi. Nós, então, já não seríamos quem somos, nem o Brasil o que é. Se um autor tem tanta importância para um país, creio ser possível afirmar que os filmes que assiste uma menina, e também os livros que ela lê, moldam quem ela será ainda mais.

Admito antes que me acusem: nunca fui de me importar com as características físicas de protagonistas em filmes. O protagonista ser negro, mulher, homossexual, nunca me fez gostar menos, ou mais, de um filme. O que não quer dizer, porém, que não há valor nisto para tantos outros. Ora essa, se feministas clamam por representatividade, é evidente que não o fazem por teimosia. Não consiste a empatia justamente em entender aquilo que não lhe é pessoal?

Pois bem, agora, se concordamos na influência que tem a arte sobre uma pessoa, e conseguimos enxergar além de nossa própria angústia, prossigo.

Ainda em 1869, o filósofo britânico J. S. Mill argumentava contra leis que diminuíam a mulher. Acontecia do sexo feminino não ter os mesmos direitos constitucionais que tinha o masculino. O mundo mudou. Ninguém há de afirmar que existem empecilhos legais no Brasil contra o livre acesso da mulher a qualquer posição social.

A igualdade legal entre os gêneros, junto à lenta e gradual desconstrução do machismo, fez com que mulheres hoje tenham poder aquisitivo que outrora jamais tiveram. A demanda por conteúdo que apresente mulheres fortes, independentes, naturalmente cresce. Entra o capitalismo; onde há demanda, há oferta.

Cada vez mais meninas são inspiradas, por filmes e livros, a seguirem profissões que antes apenas homens tinham acesso. 

É possível, sim, que exista alguma atração natural a certas profissões, a depender do sexo do indivíduo. Porém, à medida que modelos femininos são mais plurais no mundo da arte, a diferença percentual de homens e mulheres em certas profissões, historicamente associadas a um dos sexos, diminui. O que indica que a inclinação natural dos sexos, se existente, não é o status quo.

Não sei o que pensa o leitor, mas não posso deixar de odiar a ideia de que, agora mesmo, uma menina genial não se formou cientista – seus pais pensam que ciência é coisa de menino -, e a cura de uma doença deixou de ser descoberta por isto.

Sob qualquer perspectiva, ter modelos femininos e mudar a percepção social a respeito de certas profissões é positivo. Nada se perde; o potencial ainda há de ser calculado.