Papo de bar

Lembro de quando ainda não cursava Jornalismo. Estava eu, aos meus 19 anos, refletindo — tanto quanto é capaz um jovem de 19 anos — sobre o que eu faria da vida. Faria da vida. Sempre odiei este termo: “fazer da vida”.

Primeiro, porque é algo tão abstrato que invariavelmente minha cabeça começava a doer sempre que essas palavras eram pronunciadas. Segundo, porque eu não tinha ideia de qual era a resposta.

Com o tempo decidi responder a verdade. Sempre dizia

  • Não sei, mas procuro algo que me excite intelectualmente –  talvez tenha sido menos eloquente, a memória me falha.

Assim respondi durante muito tempo. Estava eu num bar qualquer com umas pessoas quaisquer, quando me dirigiram a medíocre pergunta. Preparado, repeti o bordão. Foi quando uma colega prontamente pontuou:

  • Mas tem que pensar também no mercado, no dinheiro, né? – Ela falou assim mesmo, juro. 

Eu tentaria descrever minha ira naquele momento, se não soubesse de antemão que falharia. Falharia sem falta. Por pouco não levantei da mesa e lhe xinguei com todos os palavrões que me vieram à mente. E todos os que sabia me vieram à mente ao mesmo tempo. Tive mais pudor que ela. Sorri, balancei a cabeça, concordei. E o fiz sinceramente.

Voltei para casa arrasado. Não estou tentando dizer que ela estava errada. Mas precisava mesmo falar aquilo? Não bastava ter aquela sabedoria para si? Claro que não. Pois eu acho que certas coisas não podem, não devem ser ditas em voz alta. No caminho de casa lembrei e relembrei o ocorrido. Me veio a ideia:

  • Deveria ter levantado e citado Fernando Pessoa: “Tratem da fama e do comer / Que amanhã é dos loucos de hoje”. 

Mas não disse nada. Fui covarde. Como pude não dizer nada? Foi um atentado. Não me refiro a ela, falo do meu mutismo. Atentado não a mim; mas também a mim, aos românticos, aos poetas, à Humanidade!

Quando deitei no travesseiro, acho que voltei a concordar com a vilã, do mesmo jeito que na mesa do bar. Hoje assisti Whiplash. Neiman é o protagonista. Um jovem baterista de 19 anos que escolhe “morrer bêbado aos 34 anos, sozinho”. Seria o preço da Grandeza ou qualquer coisa assim, sei lá. Só hoje é que vim me lembrar dessa história. Quem sabe o que isto quer dizer?

Concordo com o meu eu de antes. Não com o que condescendeu com aquele nefasto comentário antes de dormir. Concordo com o que teve vontade de levantar e declamar Fernando Pessoa. E daí se ela estava certa? E daí que vou morrer? Talvez esquecido por todos os amigos como a pessoa que fui, mas lembrado por todos os seres vivos e que ainda irão nascer como Escritor, Poeta, Artista. A tal Grandeza…

O que mais me dói, e escrevo sem vergonha de cair em contradição, é saber que isto é impossível. Não se realizará, por um problema matemático. Ou melhor, mesmo que se realize, não se realizará para mim. Pois ou falharei, como todos os outros – coisa provável. Ou então, pior, eu conseguirei. Quer dizer, não eu, pois estarei morto, e o que importa ao cadáver o modelo do seu caixão? Pois é, não conseguirei mesmo que consiga. Não eu. Não Neiman. Não Pessoa. Ninguém. Coisa engraçada.

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