Lula: um constante lembrete da razão de existir um Bolsonaro

É natural e razoável a crítica constante a que é submetido o atual presidente da república; seria, pelo contrário, motivo de preocupação se as instituições ficassem caladas e inertes diante das constantes tentativas de agressão ao Estado de Direito de autoria do PR. Mas ainda não é tempo para lágrimas. Ainda há o que ser feito a fim de evitar a barbárie. Um sábio diria, imagino eu, que é tempo de todos aqueles que concordam sobre o básico para convivência em sociedade, isso é, a tolerância, o respeito às regras do jogo – democracia -, juntarem-se não para chegar ao poder, mas para impedir que Bolsonaro o faça novamente em 2022. Eis que entra Lula, a todos deixando claro que apenas se preocupa com seu projeto de poder, tal qual Bolsonaro.

Terça feira, 19/05, Lula, em entrevista à Carta Capital, disse: 

“Quando eu vejo alguns discursos dessas pessoas, falando, quando eu vejo, sabe, essas pessoas acharem bonito que tem que vender tudo que é público, que o público não presta nada… Ainda bem que a natureza, que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus. Porque esse monstro está permitindo que os cegos enxerguem, que os cegos comecem a enxergar, que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises”.

Por óbvio, Lula pediu desculpas depois, o que pouco importa. Uma frase proferida por um civil, bastante influente, é verdade, mas ainda um civil, é pouco relevante. Se ele, como Bolsonaro, ocupasse a cadeira de presidente, seria mais digno de crítica. Como não é o caso, que Lula fale o que quiser, contanto que dentro dos limites da lei.

Mais interessante de discutir é o conteúdo da frase, o que ela representa, e não a moralidade de quem a pronunciou. Em resumo, disse Lula, que a pandemia é uma coisa boa pois prova que o Estado é necessário e que privatizações são ruins. É bem verdade que a pandemia expõe alguns problemas de teses que defendem a inexistência do Estado, ou que defendem a privatização da saúde. Ainda assim, não é uma troca justificável. 

Ora, não é justamente para poupar vidas que se quer expor o problema dessas teses? O objetivo de toda teoria política e econômica é, no fim das contas, preservar a vida e o bem estar das pessoas.

Se não, pois então podemos justificar as mortes na guilhotina, consequência da revolução francesa, bem como a tirania de Napoleão que se seguiu, bem como o fim do isolamento social para que a economia não pare.

Apesar de não ser relevante como fato político, a frase de Lula é relevante como fato histórico. Podemos acreditar que foi apenas um deslize. Também podemos, ao contrário, analisar a frase sob o contexto de toda a história do PT no poder, de Lula no poder; o PT tem, sim, culpa de Bolsonaro existir. 

Ninguém há de dizer que em 2018 Haddad tinha chances maiores de vitória contra Bolsonaro em um segundo turno, no lugar de Ciro, por exemplo. Falo apenas da melhor estratégia de vitória se o PT tinha como objetivo impedir que Bolsonaro fosse eleito, a fim de preservar a democracia. A mim pouco me importa um como outro. Apenas com esse fato, é evidente que o PT tem antes em mente seu projeto de poder do que o melhor para o Brasil. Assim sempre foi, assim sempre será.

Que fique claro, jamais diria que deve ser de outra forma, afinal, natural é que todo partido pense sempre no que é melhor para si, como também cada indivíduo pensa no melhor para si e para os seus. O que em lugar disso falo é que o melhor para Lula, para o PT, não é o melhor para o Brasil, de tal sorte que em busca dos seus fins foram responsáveis, parcialmente, sejamos justos, pela existência da maior ameaça à democracia desde seu nascimento.

Enfim, que não se pense que é equivalente o que diz Lula ao que diz Bolsonaro. Tanto em conteúdo como em responsabilidade. O Presidente da República tem de ter mais responsabilidade e tem de pensar mais no que irá dizer que qualquer outro cidadão. É um dos fardos do cargo. Ele responde não somente por si, mas, enquanto ocupa a presidência, responde também por todos os brasileiros. Dito isto, Lula é tão suscetível a críticas por falar bobagens como qualquer outro cidadão: que os interessados nisso o façam.

À oposição: talvez não seja uma boa ideia ter Lula como aliado. É verdade que ele tem uma força política inigualável, mas é também verdade tudo o que foi dito aqui. Em vez disso, apostar em alguém que não necessite da polarização estúpida que há hoje no país para ser eleito é um caminho melhor, apesar de mais difícil. Até lá, espera-se que o PT e Lula não colaborem novamente para a criação de outro Bolsonaro, um já basta.

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